parei de escrever. não via mais motivo, não tinha mais vontade ou energia. e ao mesmo tempo me vi cercada de temas novos ao longo dos anos, que nunca escrevi e que sempre ficaram rondando minha cabeça. seja por medo, receio ou expectativa de colocar no papel. mas hoje resolvi escrever. comecei a terapia e agora me entendo melhor, um pouco. criei mil mecanismos de defesa para não me decepcionar mas resolvi me dar essa chance. eu nem sei como começar a falar disso, mas na minha mente eu já falo disso há muito tempo. são questões políticas e socioculturais e econômicas, que estão entranhadas no meu discurso, no discurso que eu aprendi a falar, e a ter voz, o que foi mais difícil ainda, mas desde que me vi com voz não sei mais viver sem ela, não me manifestar sobre questões tão delicadas é isenção demais pra mim. é isso.
estamos vivendo tempos frágeis demais. a luta por direitos que eu achava que estavam garantidos. ledo engano. estão em todos os lugares. o assunto mais comentado que sempre esteve aqui mas nunca esteve tão em voga como nos dias de hoje. honestamente, até o fato de podermos nos dar ao luxo de uma pauta de mulheres ser o foco de debates, é completamente incrível. e é disso que tiro que nossos direitos não estão garantidos. quanto mais eu leio, mais me informo, ouço pessoas, debato e sustento comigo a tolerância por outras opiniões, mais me vejo parte da massa que está sujeita à tudo, e estou. é involuntário para todos, tenho certeza. a democracia está em perigo. o fascismo está dando as caras. a educação básica é chamada de politicamente correta e eu não sei mais o que fazer com a minha indignação a não ser bradar aos quatro ventos que não é certo, que é imoral, e é cruel. desumano.
o machismo tem que ser combatido, mas quando se toca no nome do feminismo, a chuva de ódio vem a toda, e sei que é junção de uma ignorância coletiva. não é pelo meu direito, é pelo nosso. e me indigna mais não entenderem a importância disso. o machismo, que vem a ser a superioridade do homem sobre a mulher, existe. não é falácia, nem lenda urbana. existe e se camufla, ou não. vem de várias formas, em várias situações e condições. e cada mínimo ato que alimente-o, não é mais mínimo. pelo contrário.
o feminismo é a luta por direitos iguais entre os gêneros homem e mulher, e sabemos que isso não existe. a mulher ainda é vista como menos capaz, frágil, inferior, e essas eleições estão demonstrando o contrário. com muito mais força e alcance do que antes. as mulheres estão compreendendo, pelo menos muitas delas, que seus direitos estão sendo violados, destruídos, e que sim, elas tem direitos. algumas não sabiam, não tinham consciência. o lugar de fala é dela. se impor é a ordem. ter direito a escolha também. a luta nunca esteve tão fortalecida como hoje. o racismo que também sempre esteve aí, agora tem importância no discurso também. compreender o feminismo negro e o feminismo branco, é entender que algumas mulheres lutam por direitos fundamentais dos dois grupos, e algumas lutas são específicas e só delas.
compreender isso, é ter empatia e entender que todos temos nosso lugar de fala, de protagonismo em algum momento. a luta é por direitos. deveres nós já temos, já fomos muito bem incubidos disso. o estado não deixa dúvidas. algumas leis precisam ser melhoradas, outras anuladas, mas ainda é uma democracia. a luta é para que a ditadura não tome conta, a censura não seja o novo instrumento de opressão, e o velho também. retrocesso. enxergar como a política está tão entranhada na nossa vida, é enxergar nosso papel na manutenção de um país, que tem povos diferentes, miscigenados, mas iguais em uma coisa apenas, ou deveria: o respeito, e a tolerância. respeito e tolerância a todas as formas humanas. mas nunca ao fascismo. a opressão. ao ódio. a crença de superioridade, nem nada disso. não é um simples desencontro de opiniões. divergências entre os argumentos. é mais do que isso. é muito mais.
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