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Não consigo pensar em nada mais bonito, do que te ter aqui. Eu me vejo com a saudade triplicada dentro do peito, que quase explode por saber que a hora está chegando, cada vez mais perto. Digamos que estou olhando o relógio a cada cinco minutos, é uma mania que eu tenho habitualmente, mas piora sabendo que vamos nos encontrar de novo, depois de tanto tempo, tanta falta sua, tanta coisa chata tentando te substituir por uns momentos, ou talvez pelo dia todo, a semana toda. Mas eu não te tirei da cabeça um só momento, quisera eu que fosse verdade, que você estaria aqui, mais cedo do que eu espero. Nunca lhe disse, mas não gosto de surpresas, elas são desagradáveis na maioria das vezes que presenciei, por isso o trauma que carrego é quase do tamanho do meu orgulho, mas não supera, ainda bem que não. Você lembra? Eu ainda te acho um bobalhão, nada mudou. Nunca te falei mas você já deve ter percebido, porque você não observa umas coisas, mas outras você observa até demais. Nunca te falei que eu olho pra baixo e desvio o olhar do seu, porque estou sem saber o que falar, ou talvez eu tenha tanta coisa pra falar que tenho medo de não parar de tagarelar… Lembra?! Você é o bobo alegre e eu tagarela em horas contrárias à precisão. Você sabe que eu só falo coisas bobas nas horas mais inadequadas, é um dom, acredite. Eu nunca aceitei essa mudança, a vida ter me mudado de lugar e você ter mudado as palavras comigo, nunca foi meu forte aceitar, e acho que não vai ser tão cedo. Você sabe? Eu sou uma pessoa indecisa em relação à quase tudo, e você provavelmente deve estar tentando adivinhar quem ou qual é a minha exceção. Eu nunca te disse, mas é você. E foi você que já me viu de cabelo desarrumado, sem maquiagem e com roupas tão velhas e surradas que normalmente eu não deixaria ninguém ver. Você chegava na minha casa e me contava histórias loucas e longas, tão engraçadas quanto você. Eu percebi que você é meu ponto fraco, mas percebi à pouco tempo. Você é o único de verdade, o único espontâneo e sincero que eu conheço, e te conheço há tantos anos e ainda me lembro de tudo. Lembro de quando eu cheguei e não me identifiquei nem quis ser amiga de ninguém, nem mesmo de você. Mas o tempo passou e nós nos tornamos grandes amigos mesmo, cada um sendo o amigo que podia ser pro outro. Você me ouvia e pedia meus conselhos, já eu não te falava quase nada da minha vida, mas você aceitava e entendia e até não se importava, não muito. Lembro porque você me deu tantas coisas pra lembrar, que agora é o novo você das minhas histórias, é com você que eu tenho muito mais histórias do que com qualquer um que eu tenha conhecido e me apegado por aí, nesses caminhos tortos que andei, mas enfim parei de andar, parei de tentar e de acreditar. É estranho porque mesmo com todas essas coisas, eu não me apeguei à você como me apeguei aos outros… Mesmo quando saíamos nas ruas abraçados e as pessoas que viam achavam que nós éramos namorados e nós riamos e desviávamos o olhar um do outro ao mesmo tempo. Eu olhava pra baixo e você pra frente, sempre em frente, nós seguíamos conversando, você falava e eu ouvia, eu até te batia e sempre que você me via, me recebia com um toque de mão esquisito demais, que até hoje eu me lembro, mas nunca me acostumei. E quaisquer que fossem os motivos, nós éramos a piada, mesmo sem graça. Aliás, só eu ficava sem graça na sua frente, você nunca ficava e até me acalmava mas não me sufocava. Lembro também que você que me fez odiar que toquem no meus dedos dos pés e das mãos, porque você sem meu consentimento me olhava nos olhos e ria e depois fingia que nada estava acontecendo, e começava a estalar todos os meus dedos dos pés, malditos! Não consigo parar com a mania de estala-los agora, por culpa sua. Nunca achei que você fosse me dar alguma história pra contar, mas vejam só… Você me deu a maior de todas, a melhor que eu consegui realmente viver. Você é um bobo mesmo, sempre me recebia com um sorriso bonito e olhar profundo, que eu só agora reparei. Você não tinha vergonha de mim, vergonha de eu ser a unica que você não tinha “ficado” ou tido algum desses casos que você já teve com quase todas da cidade, cidade pequena, cada semana uma, mas sempre o mesmo comigo, sem tirar nem por. Você ia na minha casa, eu passava na sua rua só porque era caminho de ir pro meu destino mesmo, eu te encontrava por acaso várias vezes ao dia. Você se dava tão bem com todo mundo, eu tinha inveja de você, inveja porque eu não era assim, e ainda não sou, e pensando bem: melhor assim. Você é a pessoa mais autêntica que eu conheço. Lembro de termos nos afastado por um tempo, nem lembro mais porque. Eu fingia que não sentia falta, mas era tudo o que eu sentia. Mas ainda penso a mesma coisa de antes, não sei sós íamos dar certo, nos conhecemos tão bem pra isso acontecer. Conheço as suas brincadeiras de cor, e me intimidar você nunca conseguiu, até hoje não sabe porque, nem vai saber. Nós começamos por um caminho diferente, suas intenções eram diferentes, por isso não dei muita importância, mas depois: você virou importante, especial, amigo incompreendido. Você parecia não fazer questão de pessoas te entenderem, e deixava passar os boatos sobre ti. Sempre tentava me irritar e vez em quando conseguia, mas não por muito tempo porque eu gostava de me vingar, mas só de você, só das suas piadas e brincadeiras. Eu lembro de várias outras coisas, passa na minha casa de novo pra saber o resto, eu acho que você vai gostar de saber que eu também te observava. E não podia deixar passar em branco essas coisas tão bonitas que você me deu de presente, dá vontade de lembrar eternamente.
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