Mamãe está sentada na cadeira de balanço que tem na varanda, olhando o céu azul que admira toda vez que vem aqui. Penso que ela seja mais forte do que se imagina, tenho quase certeza. Ela toma uma xícara de café com leite e cultiva hábitos que não lhe fazem bem, como assistir os mesmos filmes cujos diálogos ela fala pra si mesma, olha o relógio quebrado que lhe deram de natal e que ela nunca tirou da parede. o dia inteiro é 22:45 e ela não se importa. 
Esse ano ela montou a arvore de natal sozinha, arranjou um emprego que paga mal em condições precárias e sua vida sentimental está por um fio, mas ela não liga. Tem a ideia fixa de recomeço e por isso nunca conclui, devo me parecer com ela. Tem uma agenda do ano passado que risca pra fazer parecer ser desse ano, ela não quer uma nova. 
Mamãe fica contente frequentemente, não lê muitos livros mas toma muito chá, ela adora chá de qualquer tipo. Disse que os jornais que eram entregados em casa não deviam ser extintos, porque gostava do barulho que fazia ao virar a folha, eu gostava dos risos desvairados que ela dava ao perceber que estava de cabeça pra baixo.
Dizia:

- Calma mãe, é normal.

Talvez fosse a emoção exacerbada que ocorria quando ela fazia algo lhe fazia mal, e ela não sabia. Mas rir com certeza não parece ser uma dessas coisas. As vezes ela chorava baixinho no quarto e eu só percebia porque ela chegava a parecer um pimentão de tão vermelha. Ela é distraída e consequentemente desastrada, penso que eu saiba de quem herdei essas habilidades especiais. Analiso certos acontecimentos e outros eu não quero nem pensar, acontece que é triste demais. Principalmente porque ninguém percebe a tristeza. Parece que ela dormiu no ônibus e passou do ponto de descida, andou quilômetros pra perceber que não era por ali, não era aquele caminho. Mas é mais triste que isso, é mais. 

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