Lembro como se fosse ontem. Você era só o observador cego das minhas histórias, agora você é uma delas. De manhã de te via tristonho mas sempre rindo, não te falava porque achei que você fingia bem demais, eu não tenho jeito pra essas coisas. Não tenho nem pra ouvir, quem dirá pra falar, triste verdade. Eu queria ser mais corajosa, mas naquele tempo não pensava tanto nisso, eu nem sequer pensava. Agora eu penso um milhão de vezes antes de agir, por isso acabo não agindo nem fazendo nada. No começo da tarde você ia pra minha casa e me via toda desgrenhada, mas eu não tinha vergonha de ti, por algum motivo não prestava atenção nisso. Você me conheceu sem maquiagem, me viu natural… Você me viu sendo eu mesma todas as vezes. No final da tarde você me encarava, eu até hoje não encaro ninguém por tua causa, mas eu era feliz. Eu tinha você, tinha a sua amizade e o seu carinho, eu nem percebia mas tinha. Você que me fez ter receio de gente que toca na minha mão e olha para os meus pés. Você tinha essa mania, ainda deve ter, de estalar os meus dedos: eu nunca vou esquecer disso, é a sua principal característica que ainda resta na minha memória tão chula e do avesso, desse jeito. E de noite… Bom, a noite me observava e quase me ordenava sair de casa, pra ir caminhar ou correr contigo, você é oposto de mim porque você deve lembrar que eu odeio esportes. Mas eu ia, pra te agradar eu ia e nós andávamos abraçados de vez em quando, mas uma vez eu fiquei constrangida com o olhar das pessoas em nós e nunca mais te abracei. São coisas que eu lembro e gosto de lembrar porque eu mudei, é estranho comparar o meu “eu” de agora com o do “passado”, mas eu reparo. E nas minhas melhores lembranças você prevalece, como daquela vez em que a chave da minha casa caiu pra dentro dela, pela janela e você, como o herói que era fez o maior esforço e trouxe de volta pra mim, e nós rimos e depois nos encaramos mas deixamos como estava, demos a volta no quarteirão e depois de muito cansaço de ambos os lados, nós paramos e respiramos ofegantes. Eu tinha vontade de te matar por ter me feito correr tanto, como a sedentária que sou deixei me levar pelos seus encantos de moço. Mas nós avistamos uma sorveteria, você já sabia o que fazer e me pagou um sorvete de flocos porque sabe que é o meu preferido e nem precisou me perguntar, eu não notei na época mas você me conhecia tanto. Hoje as coisas mudaram e nós estamos distantes mas ainda bem que só literalmente. Seria um crime perder alguém como você, amigo daqueles que eu achei que nunca ia ter.
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