Pra te dizer o que não falei

Eu queria poder dizer que conheço a chuva e o jeito como ela me afeta, os dias em que ela faz falta, mas não. Queria dizer que conheço o inverno e sei quando ele vai chegar e que quando chegar vai ser diferente porque eu vou sentir, vou saber e vai ser óbvio pra mim, assim como é óbvio a falta que você faz aqui. Queria poder dizer que sei falar abertamente das coisas que conheço e que não desvio o olhar pro chão ou disfarço mexendo as mãos constantemente, mas não e todo mundo sabe que eu não disfarço nada quando faço isso. 

Queria poder dizer que um bilhete ou aviso prévio seria suficiente pra me curar dessa saudade e que vai passar logo, mas quem me garante esse logo? […] Não tem ninguém por perto pra me ouvir gargalhar sinceramente nas poucas vezes que eu me sinto feliz, de verdade. Mas também não tem ninguém pra ouvir chorar e soluçar frequentemente sem nem saber porque exatamente e se esse “porque” vale a pena, se vale mais à pena do que prestar atenção no que eu vivo repetindo mas que não entra nos ouvidos de ninguém, nem nos meus.

Queria conseguir falar no passado sem parecer uma velha lembrando de como aqueles tempos eram bons, mas não dá, só sei ser eu. Querendo ou não eu não tremo ao falar com desconhecidos e conhecidos também e se for hereditário melhor, não vai ser lá uma das melhores desculpas mas eu vou me sentir menos constrangida ou qualquer coisa do tipo. Mas quando eu falo de saudade todos desviam o olhar e eu continuo olhando pra frente e seguindo sem desviar do caminho, por mais que não queiram me escutar.

É que o coração bate forte e não sabe disfarçar, eu muito menos. O fim do mês chega e com ele vem a recordação de alguma coisa que eu queria ter esquecido, deixado lá atrás mas não, não consegui conter. Esse “não” é o mais patético de tudo e metaforicamente falando é o que mais digo quando não quero dizer. 

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